Produzir biometano a partir de resíduos sólidos urbanos (RSU) pode ser uma das chaves para a transição energética no Brasil. No entanto, essa oportunidade ainda enfrenta entraves estruturais, regulatórios e operacionais.
É o que destaca Antonio Januzzi, engenheiro-sanitarista, e diretor técnico da ABREMA (Associação Brasileira de Empresas de Tratamento de Resíduos e Efluentes), em entrevista à Vanice Nakano, do Podcast da Amplum Biogás.
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Com mais de três décadas de atuação no setor, Januzzi oferece uma visão estratégica sobre como o aproveitamento energético dos resíduos, especialmente via biogás e biometano, pode ser ampliado no país — desde que políticas públicas, incentivos e tecnologias avancem em conjunto.
Segundo estudo realizado pela Amplum em parceria com a PSR e o Instituto 17 para a FIESP, o biometano gerado em aterros sanitários apresenta um custo nivelado competitivo frente a outras rotas de produção.
Mais simples?
Ao contrário do que muitos imaginam, gerar biometano a partir de resíduos urbanos não é necessariamente mais simples ou mais barato do que outras rotas, como biodigestores agroindustriais.
De acordo com Januzzi, a realidade é que essa rota exige um conjunto robusto de condições: alta escala, tecnologia especializada, estações de purificação e distribuição, e investimentos expressivos.
Apesar da percepção de vantagem, o especialista ressalta que nem todos os aterros têm escala ou viabilidade técnica para entrar nesse mercado. “Um dos critérios básicos é receber pelo menos 600 toneladas de resíduos por dia”, pontua.
Dados do último panorama da ABREMA indicam que o Brasil possui potencial para produzir até 3 milhões de Nm³ de biometano por dia, o que equivale a cerca de 5% da demanda nacional de gás natural. Mas Januzzi lembra que esse potencial está longe de ser explorado, pois apenas uma fração dos aterros autorizados pela ANP está, operando projetos de biometano atualmente.
Num primeiro momento, as tecnologias eram inviáveis economicamente, mas agora, com incentivos como o Renovabio, os créditos de carbono (CBIOs) e a Lei do Combustível do Futuro, os investimentos começam a se tornar mais atraentes.
Regionalizar soluções
Januzzi pondera que os entraves ainda passam pelo alto CAPEX para implantação de estações de purificação;dependência de equipamentos importados, com elevada carga tributária e baixa escala de operação em municípios pequenos.
A solução, segundo ele, está na regionalização da gestão de resíduos, por meio de consórcios intermunicipais que possibilitem o compartilhamento de infraestrutura.

“Muitos municípios não têm equipe técnica, nem recursos para operar aterros adequados. A ABREMA atua junto a estados e órgãos públicos para estruturar soluções viáveis, considerando logística, raio de atendimento e potencial de escala”, afirma.
Para ele, o avanço na gestão de resíduos depende também da consciência da população e da educação ambiental. “Durante muito tempo, o Brasil focou apenas na separação do reciclável seco. Mas se tivéssemos mirado nos resíduos orgânicos desde o início, já teríamos resolvido metade do problema.”, disse citando Gabriela Otero (Pacto Global da ONU).
A fala reforça a importância de políticas públicas como o Planares (Plano Nacional de Resíduos Sólidos) e o Planaro (Plano Nacional de Redução e Reciclagem de Orgânicos), que já incluem metas específicas para esse tipo de resíduo.
Com um potencial significativo, incentivos emergentes e avanços tecnológicos, o biometano tem tudo para se consolidar como um dos pilares da transição energética no Brasil. Mas, para isso, é fundamental alinhar políticas públicas, atuação empresarial, educação ambiental e cooperação intermunicipal.
A entrevista com Antônio Januzzi deixa claro: a valorização de resíduos é viável — e urgente.

🔗 Ouça o episódio completo no podcast da Amplum Biogás no Youtube
📘 Confira o Panorama de Resíduos da ABREMA em: https://www.abrema.org.br/panorama/
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