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Metrologia do biometano: por que a medição importa? 

A confiabilidade das medições é indispensável na infraestrutura dos projetos de biometano. Cristiane Augusto, do Inmetro, explica como métodos, equipamentos e rastreabilidade sustentam a qualidade do produto
22 setembro, 2026

A comercialização do biometano envolve diversos fatores, entre eles a garantia de que o gás entregue corresponde à qualidade acordada entre as partes. Essa exigência ganha peso à medida que mais agentes passam a atuar no setor, o que torna a estrutura de qualidade e segurança das transações cada vez mais necessária.  

Nesse cenário, o Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro) vem avançando em metodologias alternativas à cromatografia gasosa. A técnica é utilizada para determinar a composição do biometano e que demanda altos investimentos para o produtor. A metrologia cumpre esse papel na cadeia do biometano. Ela reúne os métodos e equipamentos utilizados para analisar o gás, a calibração, a validação dos métodos e a rastreabilidade dos resultados. 

Cristiane Augusto fala sobre a aplicação da metrologia no mercado do biogás e biometano
Cristiane Augusto, responsável pelo Laboratório de Análise de Gases do Inmetro.

Cristiane Rodrigues Augusto Chelles Iglesias, chefe do Laboratório de Análise de Gases do Inmetro, atua nesse contexto. Formada em Química Industrial, com mestrado e doutorado em Processos Químicos e Bioquímicos, integra a equipe desde 2006 e, a partir de 2010, passou a coordenar as atividades do laboratório. Em entrevista ao Podcast Amplum Biogás, ela explica que, no mercado de biogás e biometano, a medição está diretamente ligada à qualidade do produto e às condições de comercialização. 

Medição precisa sustentar a comercialização 

Metrologia é a ciência da medição. Seu papel é garantir a confiança nos resultados obtidos com equipamentos e métodos diferentes. No caso do biometano, essa confiança é fundamental para analisar e atestar a composição do gás produzido, comprovando se o resultado obtido é adequado aos parâmetros exigidos para sua comercialização. 

Diferentes técnicas e equipamentos podem realizar essas análises. Cromatógrafos a gás e analisadores que utilizam infravermelho, sensores eletroquímicos ou células de ultravioleta são apenas alguns dos exemplos. Cada alternativa tem características, especificidades e erros próprios, além de variações ligadas à operação e à repetibilidade das medições. Por isso, a análise precisa considerar a incerteza da medição.

A calibração dos equipamentos com materiais de referência certificados e a validação dos métodos permitem avaliar o desempenho das técnicas e estabelecer parâmetros sobre a exatidão e a precisão dos resultados. A confiabilidade, portanto, depende de toda a cadeia que sustenta a medição. 

“São termos metrológicos que contribuem para os dois lados, tanto para quem está vendendo quanto para quem está comprando”

Cristiane Augusto, ao Podcast Amplum Biogás. 

Essa relação é especialmente importante porque o biometano produzido a partir de diferentes fontes precisa chegar ao destino final com uma composição compatível com os requisitos aplicáveis ao gás comercializado. A metrologia permite comparar resultados e estabelecer uma base comum entre quem produz, quem comercializa e quem compra,. Por isso, é indispensável para os projetos de biometano do mercado. 

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Composição interfere no valor do gás 

Essa relação entre medição e comercialização fica ainda mais clara nos pontos de transferência de custódia, quando o gás passa de um agente para outro. 

O volume transferido é indicado pela vazão. Mas o biometano não é composto exclusivamente por metano. Depois da purificação, outros componentes, como dióxido de carbono e nitrogênio, podem permanecer, assim como possíveis compostos indesejados, dependendo da origem do gás. Esses componentes precisam ser considerados na determinação da composição e no fator de correção aplicado ao volume transferido. 

Isso significa que a comercialização não pode considerar apenas quanto de gás passou pelo medidor. É necessário relacionar o volume à composição do produto, bem como à parcela que efetivamente contribui para o poder calorífico. 

Ou seja, a medição de vazão e a medição da composição precisam estar diretamente relacionadas. O medidor de vazão determina o volume transferido, enquanto a análise da composição fornece as informações necessárias para corrigir esse volume.  

Como explica Cristiane, essa relação é importante para que comprador e vendedor tenham segurança sobre o produto que está sendo comercializado. 

A questão é econômica, mas também envolve qualidade e confiabilidade. Se diferentes agentes utilizam métodos ou equipamentos cujos resultados não são comparáveis, é mais difícil estabelecer uma base comum para a transação.  

Por isso, calibração, validação e rastreabilidade fazem parte da própria infraestrutura necessária ao funcionamento desse mercado. 

Métodos alternativos ampliam possibilidades 

A infraestrutura de medição também acompanha mudanças regulatórias.  

Em agosto de 2026, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) publicou a Resolução nº 1.006/2026, que unificou e aprimorou regras de especificação e controle da qualidade do biometano e substituiu as Resoluções ANP nº 886/2022 e nº 906/2022. Segundo Cristiane, um dos principais avanços da medida é a aprovação de métodos normatizados que não estejam previstos no texto e, excepcionalmente, de métodos alternativos não normatizados. 

Essa mudança amplia as possibilidades para os produtores, tendo em vista que até então, o cromatrógrafo em linha era a única tecnologia aceita para a determinação majoritária da composição do biometano. A nova regulamentação abre espaço para métodos normatizados que contemplem outros equipamentos de análise, desde que seja encaminhada justificativa técnica, demonstrada sua adequação técnica e seja aprovado pela ANP. 

A ANP poderá, também autorizar o uso de método não previsto em norma técnica reconhecida para o controle da qualidade de biometano, desde que este combustível seja destinado exclusivamente ao uso industrial ou em frota cativa específica e a sua entrega seja realizada pelo modal rodoviário ou por duto dedicado exclusivamente à movimentação de biometano. 

Trabalho do Inmetro

A validação destas metodologias é uma das áreas em que o Inmetro atua. O Laboratório de Análise de Gases, vinculado à Divisão de Metrologia Química, trabalha com produção de materiais de referência certificados para gases, calibração de misturas, ensaios, comparação e validação de métodos e outras atividades voltadas à infraestrutura da qualidade. 

Em agosto de 2026, no 13° Fórum do Biogás, o Inmetro realizou uma apresentação, falando exatamente sobre os avanços em metodologias alternativas à cromatografia gasosa para determinar a composição do biometano. O conteúdo está disponível na íntegra. 

A possibilidade de utilizar métodos diferentes não elimina a necessidade de controle. Pelo contrário, quanto maior a variedade de técnicas, maior a importância de demonstrar que seus resultados são adequados à finalidade para a qual estão sendo utilizados.  

::: Entenda mais sobre o controle da qualidade do biometano 

Conhecimento ainda é um gargalo 

Para Cristiane, apesar dos avanços, a infraestrutura metrológica ainda enfrenta lacunas, especialmente em relação ao conhecimento, que permanece pulverizado. Nem todo produtor domina as possibilidades de análise ou sabe qual técnica é mais adequada à sua necessidade, especialmente porque a atividade de produção de biometano não exige necessariamente formação específica em química ou engenharia química. 

Outro ponto é a disponibilidade de laboratórios e materiais de referência certificados. Segundo a especialista, o Brasil ainda não possui um produtor de material de referência acreditado especificamente para biometano. Na prática, o mercado recorre a materiais destinados ao gás natural, que possuem mais componentes e podem ter custo mais elevado. 

Essa lacuna afeta especialmente produtores que estão começando a estruturar seus sistemas de medição. Saber qual equipamento calibrar, qual material de referência utilizar, qual faixa de concentração é adequada e como validar um método são etapas que ainda podem gerar dúvidas. 

A rastreabilidade depende de uma cadeia formada por produtores de materiais de referência, laboratórios acreditados e equipamentos calibrados. Por isso, ampliar essa estrutura significa também formar profissionais e descentralizar conhecimento e serviços. Hoje, parte importante dessa expertise está concentrada no Sudeste, enquanto o potencial de produção de biometano se distribui por diferentes regiões brasileiras. 

Cristiane defende que fortalecer essa cadeia é necessário para que mais profissionais, empresas e laboratórios atuem na área e para que produtores de diferentes regiões tenham acesso às condições técnicas para medir e comprovar a qualidade do biometano. 

A metrologia funciona, assim, como uma infraestrutura de confiança. Ela conecta método, equipamento, laboratório, produtor e comprador e permite que diferentes resultados sejam comparados de maneira confiável. 


Sobre a especialista 

Cristiane Rodrigues Augusto Chelles Iglesias é responsável pelo Laboratório de Análise de Gases do Inmetro, vinculado à Divisão de Metrologia Química. É formada em Química Industrial, com mestrado e doutorado em Processos Químicos e Bioquímicos, e atua na área de gases desde o início da carreira. 

Sobre este artigo 

Este artigo foi elaborado pela equipe da Amplum Biogás a partir da entrevista concedida por Cristiane Rodrigues Augusto Chelles Iglesias. O conteúdo organiza e aprofunda os principais temas discutidos na conversa. 

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