O 13º Fórum do Biogás, realizado pela ABiogás nos dias 11 e 12 de agosto, no São Paulo Expo, reuniu, segundo informações levantadas pela organização, mais de 1.800 participantes, 60 patrocinadores e cerca de 100 painelistas, consolidando-se como o maior evento setorial de biogás da América Latina.
A presença de agentes de diferentes elos da cadeia, produtores, distribuidoras, consumidores, comercializadores, pesquisadores e reguladores, permitiu reunir perspectivas distintas sobre o desenvolvimento do setor. Essa diversidade também esteve presente nos painéis, que trataram de questões regulatórias, comerciais, operacionais e tecnológicas.
A equipe da Amplum Biogás acompanhou os dois dias de programação com a presença de Andressa Pereira, Andreza Vaz, Jéssica Mito, e Leidiane Mariani. Este artigo reúne percepções da nossa equipe e de parceiros presentes no evento: Fernando Giachini (Instituto Totum), Tiago Nascimento (Clean Energy BR), Paula Campos (Evolução Regulatória) e Monique Riscado (PSR).
Uma programação que abrangeu os principais eixos do setor
A programação dos dois dias contemplou temas relacionados à regulamentação do Programa Nacional de Descarbonização do Produtor e Importador de Gás Natural e de Incentivo ao Biometano, instituído pela Lei do Combustível do Futuro (Lei nº 14.993/2024), além de, infraestrutura e logística, uso do biometano no transporte de carga e coletivo, valorização do digestato, descentralização e diversificação de usos do biogás, inclusão social e benefícios tributários.
“Um dos destaques desta edição foi a amplitude da pauta. A programação percorreu da agenda regulatória a temas como certificação e valorização do digestato, e reuniu na mesma sala produtor, transportador, distribuidora e agentes obrigados do mercado de gás… Ao longo das edições, nota-se o amadurecimento do setor, com a discussão incorporando questões concretas de implementação que vão além do grande potencial da fonte.”
Monique Riscado – PSR

O evento também contou com o espaço Arena, iniciativa implementada pela organização na edição anterior, que reúne apresentações técnicas de fornecedores de tecnologia, consultores e pesquisadores. Nesse espaço, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apresentou a recém-lançada Análise de Conjuntura dos Biocombustíveis 2025, nota técnica que sintetiza os principais acontecimentos, tendências e indicadores que marcaram o mercado de combustíveis renováveis no Brasil ao longo de 2025.
As apresentações utilizadas pelos painelistas nesse espaço, durante o Fórum estão disponíveis para download no site do evento.
CGOB e o mandato do biometano: definições ainda em aberto
Como era esperado, o Certificado de Garantia de Origem do Biometano (CGOB) esteve presente em diferentes painéis, inclusive naqueles em que não era o tema central. A recorrência do assunto evidencia sua importância para o setor e, ao mesmo tempo, a existência de questões ainda pendentes sobre sua operacionalização e seus efeitos para os diferentes agentes.

“O tema dos certificados de garantia de origem, que há poucos anos era discutido por grupos bem restritos, hoje ocupa posição central nas conversas sobre biogás, biometano e descarbonização. A rastreabilidade, os atributos ambientais, instrumentos como GASREC e CGOB, deixam de ser tema de nicho: agora estão dentro da agenda do setor.”
Fernando Giachini – Instituto Totum
O CGOB permite aos agentes obrigados, produtores e importadores de gás natural comprovar o cumprimento das metas estabelecidas pela Lei do Combustível do Futuro de forma desvinculada da molécula física, com base no princípio do book and claim. Esse mecanismo é indispensável para o funcionamento do mandato, diante do descasamento territorial entre a produção e os centros de consumo de biometano.
Temas como risco de dupla contagem, individualização das metas e formação dos preços dos certificados ainda suscitam discussões. Também permanecem em aberto questões relacionadas ao uso do CGOB no mercado voluntário, especialmente em relação ao atributo ambiental e ao fator de emissão.
“Tem muita coisa que parecia clara entre todos os players do mercado, e não está. Desde temas como risco de dupla contagem, individualização de metas, até o preço dos certificados. O uso do certificado pelo mercado voluntário, do ponto de vista do atributo ambiental e do fator de emissão, ainda tem muito para ser definido.”
Leidiane Mariani – Amplum Biogás

No evento ficou claro que o arcabouço regulatório relacionado ao mandato ainda não está finalizado. As notas técnicas que estabelecem os requisitos a serem cumpridos pelos agentes estão em fase de finalização, assim como o sistema informatizado da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), onde o produtor irá gerar o lastro para emissão do CGOB, precisará estar plenamente apto para a operação.
Além dessas definições, o mercado de carbono brasileiro também está em processo de regulamentação. Esse contexto adiciona questões à discussão sobre a relação do CGOB com outros atributos ambientais e sobre sua utilização como instrumento de descarbonização.
Durante o evento, a ABiogás lançou o Guia Prático do CGOB, que objetiva apoiar o entendimento sobre a operacionalização do instrumento, apresentando, por meio de perguntas e respostas, temas como o fluxo de certificação, os prazos de validade dos certificados, as regras de negociação e a coexistência com o CBIO. O documento contribui para esclarecer aspectos operacionais, mas há aspectos que ainda dependem das notas técnicas em elaboração pela ANP.

“As apresentações contemplaram questões relevantes que ainda permanecem em aberto, especialmente aquelas relacionadas ao CGOB e à sua operacionalização, ao desenvolvimento do mercado de biometano, tanto sob a perspectiva da viabilidade da infraestrutura necessária quanto da comercialização da molécula, e ao planejamento de longo prazo do setor.”
Paula Campos – Evolução Regulatória
BioGNL: logística do biometano e uso no transporte pesado e marítimo
O tema bioGNL esteve presente na programação do Fórum, com discussões em diferentes painéis e participação de agentes dos setores de transporte marítimo e rodoviário.
As discussões concentraram-se em dois usos principais: a movimentação de biometano em regiões sem acesso à malha de dutos e sua utilização como combustível no transporte pesado e marítimo. Nesse contexto, a maior densidade energética do GNL em relação ao GNC também influencia a escolha da solução logística.
O setor naval enfrenta exigências crescentes de descarbonização, e o bioGNL pode atender parte dessa demanda. As metas estabelecidas pela International Maritime Organization (IMO), preveem reduções progressivas das emissões do transporte marítimo internacional e maior participação de combustíveis de zero ou quase zero emissões, ampliando o interesse por alternativas como o bioGNL para o transporte marítimo.
Em painel sobre a diversificação dos usos do biogás, Roberta Cenni, Chefe de Biocombustíveis do Centro Maersk Mc-Kinney Møller para Transporte Zero Carbono, apresentou como o tema vem sendo tratado na Europa para a indústria marítima e as oportunidades para o bioGNL. Entre os pontos destacados, esteve o rigor aplicado ao controle de emissões fugitivas no setor de combustíveis, uma questão que ainda recebe pouca atenção no Brasil.
A United Biogas Alliance, da qual a ABiogás é membra fundadora, atua na articulação internacional do setor, com foco na expansão do mercado global de biometano e na maior interoperabilidade e reconhecimento dos certificados de origem. Essa atuação pode contribuir para facilitar operações internacionais e ampliar as possibilidades de comercialização do biometano e do bioGNL.
O digestato entra na agenda central
O digestato teve um painel exclusivo no Fórum, ampliando a discussão sobre um subproduto que ainda recebe espaço limitado nos debates do setor. Fração sólida e líquida proveniente da digestão anaeróbia e contendo nutrientes como nitrogênio e fósforo, o digestato exige definição de destinação e de formas de aproveitamento compatíveis com as características de cada projeto.
A Amplum já havia identificado o digestato como um dos pontos críticos do setor em seu webinar “Biogás e biometano: o legado de 2025 e o que esperar de 2026”, realizado no final de 2025.
No Fórum, a discussão avançou para temas como recuperação de nutrientes e produção de bioinsumos, ampliando as possibilidades de aproveitamento do digestato. Essas alternativas podem ter impacto relevante na composição das receitas e na viabilidade econômica dos projetos de biogás.
“O setor de biogás no Brasil precisa olhar para o digestato não como um resíduo a ser destinado, mas como um produto de valor econômico e estratégico, alinhado à economia circular e à segurança alimentar e energética do país. Precisamos incluir o digestato nas políticas públicas do setor e incentivar um modelo circular dos nutrientes presentes nesse produto.”
Jessica Mito – Amplum Biogás

Encarar as plantas de biodigestão como produtoras de biogás e digestato, e não apenas de biogás, é um ajuste de enfoque que o setor vem fazendo gradualmente de forma que não onere a sua operação e promova aumento na receita.
Demanda: o ponto que atravessa todos os painéis
A demanda por biometano esteve presente em praticamente todos os debates do Fórum. O setor possui potencial de produção documentado, tecnologias disponíveis e um número crescente de plantas em implantação registradas na ANP. Ainda assim, a contratação de projetos e o fechamento de negócios não ocorrem na velocidade esperada, e os painéis discutiram os fatores que contribuem para esse cenário.

“O amadurecimento do mercado de biometano ficou evidente. Não precisamos mais provar que o biogás tem potencial. A questão regulatória já avançou muito. Agora o desafio é a viabilização dos projetos, o desafio econômico, que o Brasil sempre enfrenta, tem também o desafio dos projetos de pequena escala, tenho visto muita empresa procurando alternativas para o capex ficar menor e viabilizar esses projetos”
Tiago Nascimento – Clean Energy BR
Para consumidores que não atribuem valor ao atributo ambiental, o preço do biometano ainda não é competitivo em relação ao gás natural convencional. No transporte rodoviário, a referência de comparação é o diesel, e, nesse segmento, o biometano já apresenta competitividade em determinados cenários operacionais.
A Prefeitura de São Paulo possui metas para eliminar ônibus a diesel da frota municipal, estabelecendo uma sinalização de demanda com escala e prazo definidos. Iniciativas desse tipo podem influenciar outras administrações municipais na definição de suas políticas de descarbonização do transporte coletivo.
A expansão da demanda, entretanto, ainda encontra limitações na estrutura de oferta. A infraestrutura de distribuição permanece restrita, enquanto a produção está geograficamente dispersa e a malha de dutos é insuficiente para conectar determinados polos produtores aos centros consumidores. Também existem diferenças entre os estados em relação aos incentivos fiscais e ao desenvolvimento de regulações específicas para o acesso ao mercado de gás.
Durante o Fórum, distribuidoras e transportadoras apresentaram iniciativas voltadas à ampliação da rede de abastecimento e à criação de hubs logísticos em regiões sem acesso a dutos. Essas alternativas ampliam as possibilidades de conexão entre produtores e consumidores em diferentes localidades mas precisam, claro, manter o preço competitivo.
“O que mais me chamou atenção foi a forte presença de especialistas do mercado de carbono no evento. Isso mostra que o biometano entrou definitivamente nessa agenda, aproximando o setor de biogás das discussões sobre créditos de carbono, certificação e desenvolvimento de mercado. Essa conexão é fundamental para que os produtos do setor evoluam em linha com as expectativas dos compradores e investidores. No futuro, espero ver esse movimento se repetir com especialistas de fertilizantes e bioinsumos, ampliando o reconhecimento das plantas de biogás como produtoras desses insumos.”
Leidiane Mariani – Amplum Biogás
Entre avanços e questões ainda em aberto
As discussões do 13º Fórum do Biogás mostraram um setor com diferentes frentes já em desenvolvimento e, ao mesmo tempo, com questões que ainda demandam definição. O CGOB, a formação de demanda, a infraestrutura para conectar produção e consumo, os atributos ambientais e a viabilidade econômica de projetos de diferentes escalas estiveram entre os principais temas presentes nos debates.
Para o próximo ciclo, esses temas devem continuar concentrando a atenção do setor, especialmente à medida que avançam a regulamentação do mandato e a operacionalização do CGOB, a estruturação da demanda por biometano e as alternativas para ampliar sua distribuição e utilização.
A Amplum Biogás continuará acompanhando esse processo por meio de análises técnicas e participação nos debates do setor.
Foto: Abiogás
Sobre a autora

Andressa Pereira é Engenheira Eletricista, Mestre em Tecnologias energéticas e nucleares e Sócia e Diretora de Operações na Amplum Biogás.