Na região da Amazônia Legal, mais de 30 milhões* de habitantes vivem distribuídos em uma área de aproximadamente 5,1 milhões de km², segundo dados da PNAD Contínua. Englobando os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins e oeste do Maranhão, o território é marcado por profundas particularidades e diferenças sociais e infraestruturais.
O contraste é significativo. Embora a região concentre grandes empreendimentos de geração de energia, o Instituto de Energia e Meio Ambiente estima que cerca de 3,5 milhões de pessoas na Amazônia ainda dependem exclusivamente de fontes fósseis para atender às suas necessidades energéticas. Desse total, aproximadamente 990 mil pessoas não têm acesso à rede elétrica. Outras cerca 2,7 milhões vivem em localidades atendidas por sistemas isolados, em grande parte dependentes de diesel e gás natural*.

Pensar o acesso à energia nesse cenário exige, portanto, mais do que a simples expansão da rede elétrica. É o que explica Rubem César Rodrigues Souza, doutor em Planejamento de Sistemas Energéticos e coordenador geral do Núcleo de Inovação, Empreendedorismo e Liderança para a Transição Energética (NIELT), da Faculdade de Tecnologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM), em entrevista ao Podcast Amplum Biogás.
Os desafios energéticos da Amazônia
A questão central, segundo ele, é entender a energia como instrumento de desenvolvimento. Levar eletricidade a uma comunidade não significa, necessariamente, transformar sua realidade. Para isso, é preciso considerar uma série de especificidades de cada território. A quantidade e a qualidade da energia disponível, as atividades produtivas locais, os recursos existentes e as características sociais, ambientais e legais são apenas algumas das variáveis que precisam entrar nessa equação.
Assim, o biogás aparece, aqui, como uma alternativa. Estudos do Instituto Escolhas apontam que o aproveitamento de resíduos urbanos e de atividades produtivas da região pode contribuir simultaneamente para a geração descentralizada de energia, a gestão de resíduos e o fortalecimento de atividades econômicas locais. Um levantamento realizado nos estados do Amazonas, Amapá, Rondônia e Roraima, estimou o potencial de produção do biogás em 136 milhões de Nm³ por ano. Esse volume seria equivalente, em termos energéticos, ao consumo anual de eletricidade de cerca de 107 mil residências.
Complexidade territorial
A complexidade territorial da Amazônia ajuda a explicar por que soluções padronizadas encontram limites na região.
A dimensão desse desafio aparece em diversos indicadores. Em 2023, segundo dados da PNAD Contínua, apenas 29,5% dos domicílios da Amazônia Legal contavam com acesso considerado adequado ao saneamento básico. Ao todo, cerca de 6,7 milhões de domicílios da região não possuíam saneamento adequado.
Na discussão sobre o biogás, essa informação evidencia que os desafios de infraestrutura, energia e gestão de resíduos estão frequentemente interligados. Resíduos orgânicos que hoje representam um problema ambiental e sanitário podem tornar-se insumos para a produção de energia.
Ao mesmo tempo, a dispersão da população e as longas distâncias tornam o abastecimento energético mais complexo e caro. Em algumas comunidades, o acesso depende do transporte de combustíveis por longas rotas fluviais. Há localidades em que os próprios moradores precisam se organizar para adquirir diesel e manter geradores funcionando por poucas horas ao dia.
Diversidade de contextos
Além da distância e da logística, o planejamento precisa considerar que esses territórios estão inseridos em diferentes contextos. Comunidades indígenas, áreas de proteção ambiental, assentamentos e outras localidades estão submetidos a regras e condições específicas.
Para Rubem, a própria estrutura de planejamento e governança representa outro desafio. A tecnologia, embora necessária, não é suficiente para responder sozinha às demandas da região.
“A energia não pode ser fim, é meio.”
Rubem César Rodrigues Souza em entrevista para o Podcast Amplum Biogás
Essa perspectiva muda a forma de avaliar o acesso à energia. Uma solução que atende apenas à iluminação residencial, por exemplo, pode não oferecer condições para o desenvolvimento de atividades produtivas ou para a agregação de valor aos produtos locais.
Energia como instrumento de desenvolvimento
Pensando nisso, Rubem defende que o planejamento deve partir de uma pergunta anterior: onde se quer chegar?
A disponibilidade de eletricidade precisa estar associada a uma estratégia de desenvolvimento.
Essa lógica também aparece em iniciativas de acesso à energia na região. Quando ela é direcionada para atividades coletivas e produtivas, seus efeitos podem ultrapassar o consumo residencial, permitindo o processamento e armazenamento de alimentos, o funcionamento de serviços de saúde e educação e a criação de novas fontes de renda.
Segundo o pesquisador, uma das principais experiências partiu justamente de uma característica local. Na região em questão, barcos transportavam açaí até Manaus. A proposta passou a ser beneficiar o produto na própria comunidade, utilizando o caroço como fonte de energia. Para concretizar o plano, o projeto também envolveu a criação de uma cooperativa e a capacitação dos moradores.
Outro trabalho local avaliou a produção de etanol a partir da mandioca, cultura tradicional da região. Foram realizados testes com diferentes cultivares, a implantação de uma unidade de produção e a utilização do combustível em grupos geradores.
As experiências reforçam, então, a ideia central de que a região possui recursos e conhecimentos que podem ser incorporados às estratégias energéticas locais. O desafio é conectá-los às necessidades das populações e às atividades econômicas desenvolvidas em cada território.
Biogás e aproveitamento dos recursos locais
É nesse contexto de busca por soluções adaptadas ao território que o biogás ganha relevância como alternativa viável.
A Amazônia dispõe de diferentes tipos de resíduos capazes de fornecer matéria-prima para a produção de biogás, ainda que esses materiais estejam, muitas vezes, dispersos territorialmente.
Os estudos do Instituto Escolhas mostram que há capacidade de aproveitamento energético a partir desses resíduos sólidos urbanos, da piscicultura e da produção de farinha de mandioca. Em levantamento posterior, considerando o potencial dessas diferentes fontes, o estudo estimou a possibilidade de produzir 537 milhões de m3 de biogás por ano e gerar 1,1 TWh de eletricidade, volume suficiente para atender cerca de 556 mil residências e beneficiar 2,2 milhões de pessoas.
Construção de soluções locais
O potencial, no entanto, não significa que todo ele esteja disponível para aproveitamento imediato. A própria cadeia de coleta, transporte, tratamento e concentração dos resíduos é um fator determinante para a viabilidade dos projetos. Um dos levantamentos do Instituto Escolhas apontou, por exemplo, que apenas parte do potencial analisado nos quatro estados era efetivamente coletada por sistemas de drenagem e que somente uma parcela era aproveitada energeticamente.
É justamente nesse ponto que a descentralização pode representar uma vantagem. Em vez de depender exclusivamente de grandes unidades ou de longas estruturas de transporte, determinadas soluções podem ser desenvolvidas próximas aos locais onde os resíduos são gerados e onde a energia será consumida.
Rubem explica que já existem tecnologias capazes de aproveitar materiais convencionais e diferentes possibilidades de aplicação para o biogás. Entre elas estão a cocção de alimentos e a geração de energia elétrica.
A utilização do biogás para cozinhar poderia reduzir a dependência da lenha em determinadas comunidades. Em outros casos, poderia complementar ou até substituir parcialmente o uso do diesel, especialmente em sistemas híbridos.
Mas a oportunidade não está em aplicar a mesma solução em todo o território.
“Aqui nós temos potencial para tudo, a gente só tem que saber usar, combinando essas soluções, não descartando nenhuma delas.”
Rubem César Rodrigues Souza
A lógica, portanto, é combinar fontes e tecnologias de acordo com as necessidades, os recursos e as condições de cada território.
Políticas públicas e capacitação
Para que essas soluções avancem, o pesquisador aponta a necessidade de políticas públicas, assistência técnica e formação profissional.
Na avaliação dele, o desafio não está apenas no desenvolvimento de novas tecnologias. Parte importante do caminho consiste em utilizar conhecimentos e processos que já existem, formando profissionais e estruturando condições para sua aplicação.
Embora existam resíduos disponíveis e tecnologias já conhecidas, a biodigestão ainda tem pouca disseminação em grande parte da região. Produtores rurais e comunidades podem não ter acesso à orientação técnica necessária para implantar, operar e manter sistemas adequadamente.
Impacto abrangente
Além da produção de energia, a biodigestão também pode gerar outros produtos, como biofertilizantes, ampliando as possibilidades de aproveitamento dos resíduos e fortalecendo cadeias produtivas locais.
Esse movimento pode criar uma cadeia de valor local, envolvendo capacitação, serviços, equipamentos e novas atividades econômicas. Também pode reduzir a dependência de recursos e tecnologias externas ao aproveitar matérias-primas disponíveis na própria região.
O biogás pode integrar esse conjunto de alternativas, especialmente onde há disponibilidade de resíduos, demanda local e condições técnicas para sua implementação.
Nesse sentido, o debate sobre energia na Amazônia não se trata de substituir uma fonte por outra. Ele deve pensar quais soluções podem criar condições para que a energia contribua, de fato, para o desenvolvimento dos territórios.
Sobre o especialista
Rubem César Rodrigues Souza é doutor em Planejamento de Sistemas Energéticos e coordenador geral do Núcleo de Inovação, Empreendedorismo e Liderança para a Transição Energética (NIELT), da Faculdade de Tecnologia da Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Sua atuação está voltada ao planejamento energético, fontes renováveis, eficiência energética e desenvolvimento de soluções adequadas às diferentes realidades da Amazônia.
Sobre este artigo
Este artigo foi elaborado pela equipe da Amplum Biogás a partir da entrevista concedida por Rubem César Rodrigues Souza ao Podcast Amplum Biogás. O conteúdo organiza e aprofunda os principais temas discutidos na conversa.
Ouça a entrevista completa