Fertilizantes a partir de resíduos

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A transição energética e a economia circular não começam apenas na geração de energia. Elas começam no solo.

No Brasil, um país altamente dependente da importação de fertilizantes, discutir a valorização de resíduos orgânicos como insumos agrícolas é uma pauta de relevância econômica, ambiental e geopolítica.

Para compreender como resíduos da agropecuária e da agroindústria, incluindo o digestato da biodigestão anaeróbia, podem se transformar em fertilizantes de alto valor, o episódio #53 do Podcast da Amplum Biogás aprofunda essa conexão entre solo, energia e produtividade.

No episódio, Leidiane Mariani recebe Vinicius Benites, pesquisador da Embrapa Solos e coordenador do Centro de Inovação em Insumos para Agricultura Tropical, especialista em fertilidade do solo, matéria orgânica e fertilizantes inovadores.

Confira o episódio completo, disponível no YouTube e no Spotify.

Solo: ativo produtivo, ambiental e climático

Logo no início da conversa, Vinicius destaca que o solo não pode ser visto apenas como suporte físico para a agricultura. Ele é um ativo ambiental e climático.

Os solos tropicais brasileiros, altamente intemperizados, apresentam baixa fertilidade natural e grande dependência de reposição de nutrientes. Ao mesmo tempo, são grandes estoques de carbono e exercem papel fundamental na regulação hídrica e na mitigação das mudanças climáticas.

Essa dupla função produtiva e ambiental exige manejo técnico responsável, especialmente diante de eventos climáticos extremos, perda de matéria orgânica e riscos de emissões associadas ao uso inadequado de insumos.

Economia circular e a reciclagem estratégica de nutrientes

O Brasil importa mais de 90% dos fertilizantes que utiliza. Paralelamente, gera grandes volumes de resíduos agropecuários e agroindustriais ricos em nutrientes. O episódio evidencia que tratar esses resíduos como passivos é um erro técnico e econômico.

Vinicius Benites – pesquisador da Embrapa Solos e coordenador do Centro de Inovação em Insumos para Agricultura Tropical (Foto: Acervo Pessoal)

Ao reciclar nutrientes como fósforo, nitrogênio e potássio por meio da aplicação técnica e controlada no solo, reduz-se a dependência externa, diminui-se a pegada de carbono associada à importação e cria-se um ciclo produtivo mais eficiente.

Vinicius alerta, no entanto, que a aplicação sem critério pode transformar um potencial fertilizante em passivo ambiental. Nutriente mal manejado pode se tornar contaminante. Por isso, ciência, dados e planejamento são indispensáveis.

Quando se compara a pegada de carbono de um fertilizante importado com a de um nutriente recuperado localmente, a vantagem ambiental da economia circular se torna evidente.

Digestato:  insumo agrícola ou gargalo do biogás?

Um dos pontos mais relevantes do episódio é o papel do digestato.

O digestato, produto resultante da biodigestão anaeróbia, contém nutrientes valiosos. Porém, sua alta umidade reduz a concentração nutricional e dificulta o transporte e comercialização.

Segundo Vinícius, utilizar as soluções técnicas existentes e desenvolver novas soluções para concentração de nutrientes, redução de umidade e transformação em produtos com viabilidade logística, são necessárias paraexpansão do setor de biogás no Brasil.

O episódio reforça que considerar o digestato automaticamente como fertilizante é um equívoco técnico. Ele precisa ser tratado, enriquecido ou processado para se tornar economicamente viável.

Rotas tecnológicas: da aplicação direta ao fertilizante organomineral

A conversa apresenta as principais rotas de valorização de resíduos:

  • Aplicação direta no solo
  • Compostagem
  • Biodigestão anaeróbia
  • Pirólise biochar
  • Produção de fertilizantes organominerais

Entre elas, os fertilizantes organominerais ganham destaque como alternativa industrial para transformar resíduos das atividades da produção animal, por exemplo,, com maior concentração de nutrientes e facilidade de aplicação nas grandes culturas como soja e milho.

Vinícius ressalta que nem todo fertilizante organomineral é superior ao mineral. A qualidade depende da fonte mineral utilizada, do tipo de resíduo incorporado, do rigor técnico na formulação e do tipo de solo a ser aplicado esse material.

Ainda assim, quando bem desenvolvidos, os organominerais podem unir produtividade, eficiência nutricional e redução de impactos ambientais.

Política pública, mercado e protagonismo do consumidor

Outro ponto abordado é o papel crescente do consumidor e das empresas na adoção de práticas sustentáveis.

O mercado começa a valorizar produtos com menor pegada de carbono e maior rastreabilidade. Isso pressiona cadeias produtivas a adotarem soluções baseadas em economia circular.

Para que esse movimento avance, são necessários:

  • Incentivos regulatórios adequados
  • Critérios técnicos claros
  • Estrutura logística compatível
  • Integração entre setor energético e agrícola

A transição energética, nesse contexto, não é apenas energética. É também agrícola e está relacionada à soberania produtiva.

Conectar energia, solo e produtividade

 O episódio #53 do Podcast da Amplum Biogás reforça a importância da valorização de resíduos.

Transformar resíduos em fertilizantes não é apenas uma alternativa ambiental. É uma decisão fundamental para reduzir a dependência externa, aumentar a competitividade e fortalecer a sustentabilidade da produção agrícola.

Escute o episódio completo do Podcast da Amplum Biogás em nossos canais oficiais no YouTube e Spotify.

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