Apenas no primeiro semestre de 2026, sete distribuidoras de gás abriram chamadas para contratação e compra de biometano, ou para interconexão de plantas. O movimento reforça o papel dessas empresas no desenvolvimento do mercado, conectando produtores e consumidores por meio da infraestrutura de distribuição existente.
Mas o mercado nem sempre foi tão aberto assim. Em 2018, a Companhia de Gás do Ceará (CEGÁS) foi a primeira a adquirir biometano para sua rede, abrindo caminhos para o modelo que se tornou base para o desenvolvimento do mercado em outros estados. Atualmente, a companhia adquire cerca de 90 mil m³ de biometano por dia, o equivalente a aproximadamente 14% do gás distribuído no Ceará.

Segundo Thaís de Melo, gerente de Suprimento e Transporte de Gás da CEGÁS, em entrevista ao Podcast Amplum Biogás, a decisão de investir na molécula do biometano surgiu ainda em 2014. Foi a solução encontrada para um importante empecilho: como garantir a segurança de suprimento necessária para atender à expansão do mercado de gás no estado? Naquele momento, a companhia já projetava um crescimento da demanda que exigiria diversificação das fontes de abastecimento. O biometano surgia como uma alternativa alinhada tanto à segurança energética quanto às metas de descarbonização.
Distribuidoras impulsionam a expansão do biometano
Com o mercado em crescimento, as distribuidoras de gás assumem um papel estratégico para integrar consumidores e produtores. Além de distribuir o gás, elas estruturam contratos, realizam investimentos em conexão das plantas e garantem que o combustível atenda aos requisitos técnicos para utilização na rede.
A experiência da Cegás mostra que essa atuação pode acelerar o desenvolvimento do mercado. Quando a companhia iniciou seu projeto, praticamente não havia referências regulatórias nem experiências anteriores no Brasil. Ainda assim, a distribuidora optou por desenvolver uma solução capaz de ampliar a segurança energética do estado. Ao mesmo tempo, olha para metas de descarbonização e transição energética para fontes renováveis.
“Nossa preocupação era com os próximos anos. Como garantir a segurança de suprimento quando expandíssemos esse volume?”
-Thaís de Melo
Essa necessidade levou a companhia a buscar uma fonte alternativa de abastecimento a partir do biogás produzido no aterro sanitário de Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza.
A lógica permanece atual. À medida que novos produtores entram em operação, as distribuidoras tornam-se um elo fundamental para transformar potencial de produção em oferta efetiva para consumidores industriais, comerciais e, futuramente, para outros segmentos.
Além disso, a atuação das distribuidoras na padronização de contratos e na garantia de qualidade do gás injetado na rede reduz barreiras de entrada para novos produtores. Eles passam a contar com um comprador estruturado e com regras claras de comercialização.
O projeto inovador da Cegás
Com um projeto pioneiro no Brasil, a Cegás precisou criar o caminho do zero. Apenas transformar o biogás em uma nova fonte de suprimento exigiu a parceria entre três diferentes agentes. A GNR Fortaleza ficou responsável pela produção do biometano. A Cegás investiu na infraestrutura para recebimento e distribuição; E o Governo do Ceará contribuiu com incentivos tributários para viabilizar o projeto.
Mas o maior obstáculo era regulatório. Em 2014, não havia uma autorização para injetar biometano nas redes de distribuição, obrigando a execução de um plano-piloto para monitoramento da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
A autorização foi concedida somente após a verificação de que todos os processos funcionavam em segurança, em 2018. Desde então, o biometano passou a ser injetado na rede de gás natural e distribuído para todos os consumidores atendidos pela companhia. O plano-piloto envolveu etapas rigorosas de monitoramento de qualidade, medição de vazão e verificação de compatibilidade com os materiais da rede existente. O processo serviu como referência para outras distribuidoras que posteriormente buscaram autorizações semelhantes.
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Os desafios para distribuir biometano
Apesar dos avanços, Thaís avalia que ainda existem barreiras para acelerar a expansão do mercado.
Entre elas, a própria necessidade de aperfeiçoamento em questões regulatórias que, ainda que tenham se tornado mais concretas desde o pioneirismo da CEGÁS, ainda não são ideais. A ausência de normas padronizadas para conexão de novas plantas, por exemplo, dificulta a expansão acelerada da oferta.
O fortalecimento da cadeia nacional de fornecedores de equipamentos e uma maior coordenação entre políticas públicas capazes de estimular novos investimentos também são passos essenciais no desenvolvimento do setor.
Como pontos promissores para o mercado e as distribuidoras se destacam, ainda, incentivos compatíveis com os benefícios ambientais proporcionados pelo biometano e estímulos permanentes à pesquisa e ao desenvolvimento tecnológico
Distribuição do biometano e segurança energética
A experiência da CEGÁS mostra que o biometano também desempenha um papel relevante na segurança energética.
Ao diversificar as fontes de suprimento, as distribuidoras reduzem a dependência de um único fornecedor, ou de uma única infraestrutura, aumentando a resiliência do sistema diante de limitações operacionais e oscilações de mercado.
Essa característica ganhou ainda mais importância nos últimos anos, com o crescimento da demanda por gás e a necessidade de ampliar a oferta sem depender exclusivamente das fontes fósseis.
Segundo Thaís, quanto maior a participação do biometano na matriz de suprimento, maior será o interesse da companhia, e de outras distribuidoras brasileiras, em contratar novos volumes.
O pioneirismo da companhia, que hoje inspira novas iniciativas em diversos estados do país, mostra que o desenvolvimento do setor depende da atuação coordenada entre empresas, reguladores e poder público. As próprias distribuidoras desempenham um papel decisivo na consolidação desse mercado. Além de transportar o combustível, elas conectam produtores e consumidores, viabilizam investimentos e ampliam a segurança do abastecimento.
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Sobre Thaís de Melo Cunha
Thaís de Melo Cunha é gerente de Suprimento e Transporte de Gás da Companhia de Gás do Ceará (Cegás). Engenheira civil e mestre em Gestão de Empresas e Empreendimentos, representa o Brasil na International Gas Union (IGU) e acompanha o desenvolvimento do mercado de gás e biometano no país.
Sobre este artigo
Este artigo foi elaborado pela equipe da Amplum Biogás a partir da entrevista concedida por Thaís de Melo Cunha ao Podcast Amplum Biogás. O episódio fala sobre o pioneirismo da CEGÁS na distribuição de biometano e os desafios para o desenvolvimento desse mercado no Brasil.
Ouça a entrevista completa
Quer aprofundar o tema? Na entrevista completa, Thaís de Mello Cunha detalha sobre o mercado de gás no Ceará, a construção do primeiro contrato brasileiro de distribuição de biometano em rede, explica como foi o processo de regulamentação junto à ANP, as questões contratuais com o produtor e comenta os desafios enfrentados pelas distribuidoras.
Episódio #58 disponível no YouTube e no Spotify.