A descarbonização do transporte está entre os temas mais urgentes da transição energética. Mas, quando a conversa se limita a discutir qual combustível substituir, ela já começa pelo lugar errado.
É essa a provocação central do episódio #56 do Podcast Amplum Biogás, em que Leidiane Ferronato Mariani conversa com Dominique Mouette, docente no Programa de Pós-Graduação em Energia da Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do RCGI (Research Centre for Gas Innovation).
Com graduação em Matemática, mestrado em Engenharia Elétrica pela Unicamp e doutorado em Engenharia de Transportes pela USP, Dominique dedica sua carreira ao planejamento da mobilidade urbana, ao transporte de baixo carbono e às emissões de gases de efeito estufa.
O resultado é uma conversa que aprofunda uma reflexão do debatesobre biogás, biometano, mobilidade sustentável e descarbonização no setor de transporte no Brasil. Confira o episódio completo no YouTube e no Spotify.
Mobilidade sustentável: uma questão climática, energética e de saúde pública
Um dos argumentos apresentados no episódio é que e o planejamento da mobilidade urbana nunca foiapenas uma questão logística. A mobilidade sustentável precisa ser compreendida a partir de três dimensões: a econômica, a ambiental e a social.
O setor de transporte está entre os maiores emissores de gases de efeito estufa e de poluentes que afetam diretamente a saúde da população.
Na dimensão econômica, a discussão passa por custos de deslocamento com tarifas acessíveis e compatíveis com a realidade da população e por sistemas de transporte que sejam financeiramente viáveis para usuários, operadores e gestores públicos.
Na dimensão ambiental, entram as emissões, os combustíveis, a eficiência tecnológica e os efeitos do transporte sobre a qualidade do ar e sobre o clima. Já na dimensão social, a mobilidade aparece como elemento decisivo para o acesso a trabalho, saúde, educação, lazer e serviços públicos.
O transporte não afeta apenas emissões e consumo energético; ele também impacta diretamente a saúde pública. A exposição ao material particulado, especialmente em regiões com intensa circulação de ônibus e caminhões movidos a diesel, afeta a população de forma desigual.
Ao mesmo tempo, deslocamentos longos e precários comprometem a qualidade de vida psíquica, ampliam desigualdades e dificultam o acesso às oportunidades.
Antes de trocar o combustível, é preciso alinhar planejamento urbano e mobilidade
Outro aspecto instigante é a tese de que a substituição de combustíveis, embora fundamental, é apenas uma das peças do quebra-cabeça. Antes disso, é preciso repensar as cidades.
“Não adianta a gente fazer mais linha de metrô, linha de trem, se as pessoas ficam duas horas no trem.” (Dominique Mouette)
Dominique argumenta que a descarbonização do transporte não depende apenas da escolha de combustíveis de menor emissão, mas também da necessidade de descentralizar as atividades urbanas, como trabalho, lazer, saúde e educação, reduzindo deslocamentos excessivos.
Quanto mais concentrados estiverem os empregos e os serviços, maior será a dependência de viagens longas. Isso gera custos maiores, mais congestionamento, maior consumo energético e maior exposição a poluentes.
Por essa razão, o planejamento da mobilidade precisa dialogar com o planejamento urbano e com a distribuição territorial das atividades.
Nesse contexto, o episódio mostra que pensar mobilidade sustentável exige olhar para o sistema como um todo. A lógica não é apenas substituir uma fonte energética por outra, mas também criar condições para deslocamentos mais curtos, mais eficientes e mais compatíveis com a vida nas cidades.
Rotas de descarbonização do transporte
Dominique apresenta uma análise das princiapais alternativas de descarbonização do transporte rodoviário no Brasil. Ela compara as principais rotas disponíveis hoje: diesel, elétrico, biocombustíveis líquidos, gás natural e biometano.
O diesel segue como dominante em grande parte da frota, mas associado a grandes emissões de gases de efeito estufa e poluentes locais. Mesmo com a evolução dos padrões de emissão, como o PROCONVE no Brasil e o EURO na Europa, o diesel continua emitindo significativas quantidades de CO₂ e outros poluentes.
A eletrificação avança, especialmente em veículos leves e em parte do transporte urbanos em rotas curtas. No entanto, enfrenta limitações relaconadas à infraestrutura de recarga.
Biocombustíveis líquidos, como etanol e biodiesel, também tem espaço importante no setor de transporte, contudo, tem limitações no que se refere ao transporte pesado.
O gás natural e o biometano, segundo Dominique, são rotas mais maduras e viáveis para o transporte pesado. O gás natural como rota de transição, reduz o material particulado, mas ainda emite gases de efeito estufa por ser fóssil.
O biometano ganha destaque, compatível com a infraestrutura de gás já existente, sendo promissor para o uso em ônibus e caminhões, é um combustível biogênico, suas emissões na combustão equivalem às que ocorreriam naturalmente na decomposição da matéria orgânica.

“O biometano traz a vantagem sobre o gás natural.. Aqueles gases seriam emitidos no meio ambiente de qualquer forma, pelo processo natural de decomposição. Então, eu produzo o biometano, estou usando esse gás, e esse gás está sendo usado para deslocamento de pessoas e de carga. Ele realmente é uma energia muito interessante de ser usada.” (Dominique Mouette – Foto: Reprodução Podcast Amplum Biogás)
O episódio mostra, portanto, que não há uma única resposta para o desafio da mobilidade. O que existe é um conjunto de rotas possíveis, cada uma com vantagens, restrições e contextos mais adequados de aplicação.
Biometano no transporte coletivo: o desafio de transformar o decreto em implementação
A experiência de São Paulo com a incentivo do uso de biometano no transporte coletivo urbano, diversificando as soluções para a redução de emissões do estado.
O município publicou um decreto permitindo o uso de biometano nos ônibus da cidade, um avanço regulatório importante, já que a legislação anterior, ao estabelecer apenas limites de emissão, acabava direcionando as frotas exclusivamente para a eletrificação.
No entanto, o episódio deixa claro que a existência de um decreto, por si só, não garante a adoção da tecnologia em escala. Dominique reconhece o valor do decreto, mas é direta na crítica: ao transferir toda a responsabilidade de abastecimento para as concessionárias privadas de transporte, o poder público delegou sem apoiar.
As empresas operadoras precisam encontrar o biometano, negociar com distribuidoras e levar o gás até as garagens, tudo isso em paralelo a inúmeras outras obrigações contratuais. O resultado previsível é que o biometano acabe não sendo priorizado.
É necessário viabilizar fornecimento, infraestrutura, logística de abastecimento, segurança contratual e coordenação entre os agentes envolvidos. Quando toda essa responsabilidade é transferida às operadoras, sem mecanismos complementares de apoio, a implementação tende a avançar com mais lentidão.
Isso mostra que o problema de infraestrutura não é exclusivo do biometano e que qualquer rota de descarbonização exige planejamento integrado e participação ativa do Estado.
Corredores sustentáveis: infraestrutura como condição, não como detalhe
Para o transporte de cargas de longa distância, Dominique apresenta o conceito de corredores sustentáveis, como elemento estruturante nessa transição.Rotas logísticas estruturadas com infraestrutura de abastecimento de combustíveis de baixa emissão ao longo do percurso, conectando centros urbanos, polos industriais e portos são necessáarios para ampliação do uso dessas soluções
A importância de trajetos estratégicos, como a rota entre Mato Grosso e Porto de Santos, mostra que a transformação do transporte rodoviário de cargas exige estrutura compatível com as necessidades desse setor.
Dominique menciona experiências internacionais em que esses corredores azuis, inicialmente planejados para gás natural,passaram a, progressivamente, a incorporar o biometano na mesma base de abastecimento. A infraestrutura é a mesma; o que muda é a fonte do gás.
No Brasil, esses corredores ainda precisam ser ampliados com planejamento público, envolvendo montadoras, produtores de biometano, distribuidoras de gás, concessionárias de rodovias e os próprios transportadores.
A responsabilidade do poder público na transição
A transição energética no transporte não acontece sozinha. Para avançar, é necessário criar condições econômicas, regulatórias, técnicas e operacionais para que as soluções ganhem escala.
Isso envolve Isso envolve financiamento, incentivos, segurança jurídica, coordenação entre produtores, distribuidores, operadores e montadoras, além de investimento em infraestrutura.
A pesquisadora cita como referência positiva a experiência de São Paulo com os caminhões de coleta de lixo abastecidos a biometano produzido nos aterros sanitários: mais de 200 veículos em operação, com biometano produzido e consumido dentro do próprio sistema municipal. Uma iniciativa que pode e deve ser ampliada.
Certificados de biometano: uma solução para a distribuição geográfica
O episódio também aborda sobre os certificados de biometano. Esse mecanismo permite separar o atributo físico do energético e o atributo ambiental, criando uma alternativa para ampliar o acesso à solução mesmo quando o gás renovável não está fisicamente disponível no ponto de consumo. .
Nesse modelo, uma garagem de ônibus pode consumir gás natural fisicamente, mas adquirir certificados que comprovam que uma quantidade equivalente de biometano foi produzida e injetada na rede em outro ponto do país.
Na prática, esse mecanismo favorece a expansão do biometano em regiões onde a infraestrutura ainda é limitada, contribuindo para acelerar sua adoção no transporte e ampliar o alcance ambiental da solução.
Um olhar realista, mas não pessimista, sobre os próximos 15 anos
Ao projetar os próximos anos da mobilidade sustentável no Brasil, Dominique compartilha uma perspectiva realista. A renovação da frota é lenta, a implantação de infraestrutura demanda tempo e recursos e o ambiente regulatório ainda apresenta incertezas. Ao mesmo tempo, há sinais consistentes de avanço.
A pauta climática ganhou relevância nas estratégias de planejamento, os eventos extremos vêm pressionando o debate público e diferentes cidades já experimentam soluções relacionadas à eletrificação, ao biometano e a novos arranjos de mobilidade.
Isso não significa que a transição será linear ou rápida, mas indica que o tema tende a permanecer no centro dos diálogos das decisões energéticas e urbanas.
“A gente tem muitos caminhos abertos, mas precisa de uma reunião da sociedade, de países, para levar isso adiante. A gente não pode achar que magicamente vai se resolver.” (Dominique Mouette)
Para Dominique, o Brasil tem um potencial extraordinário de produção de biometano, a partir de resíduos agrícolas, efluentes e resíduos sólidos urbanos, e precisamos usá-lo de forma inteligente, combinando produção distribuída, infraestrutura planejada e incentivos consistentes.
Mobilidade sustentável é um sistema, e o biometano tem um papel central nele
O episódio #56 do Podcast Amplum Biogás é uma aula que mostra que a mobilidade sustentável precisa ser tratada como um sistema que articula planejamento urbano, infraestrutura, energia, regulação, saúde pública e inclusão social.
Dentro dessa lógica, o biometano se destaca como uma s rotas promissoras para a descarbonização do transporte pesado no Brasil. Além disso, é compatível com a infraestrutura existente e pode ser produzido a partir de resíduos distribuídos por todo o território nacional.
Mas sua adoção em escala depende de muito mais do que boa tecnologia: depende de vontade política, planejamento integrado e comprometimento de toda a cadeia.
Se você quer entender, de forma objetiva e técnica, como mobilidade sustentável, transição energética e biometano se conectam no debate sobre o futuro do transporte no Brasil, vale a pena ouvir este episódio completo.

Ouça o episódio completo no YouTube e no Spotify e cadastre-se gratuitamente em nossa newsletter para receber, em primeira mão, os próximos conteúdos do Podcast Amplum Biogás.