Adaptação à mudança do clima

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A transição energética e a redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE) ocupam o centro do debate climático global. No entanto, outra agenda tem ganhado protagonismo nas discussões sobre clima: a adaptação às mudanças do clima.

Este é o ponto central do episódio #57 do Podcast Amplum Biogás, em que Vanice Nakano conversa com Ana Carolina Câmara, diretora de projetos na GIZ (Agência de Cooperação Internacional do Governo Alemão), que atua no Brasil apoiando políticas públicas e projetos de desenvolvimento sustentável com foco nas agendas de mitigação, resiliência e adaptação às mudanças do clima

Zootecnista, mestre em Agronomia e especialista em Gestão Pública, Carol (como prefere ser chamada) atua há mais de uma década no fortalecimento de políticas públicas voltadas à gestão de riscos climáticos em diferentes escalas: nacional, subnacional, empresarial e na infraestrutura de transportes. Participou da elaboração do Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima (2016), atuou junto ao Ministério do Meio Ambiente no processo que resultou no Plano Clima Adaptação e coordenou o ProAdapta, projeto de cooperação técnica Brasil-Alemanha voltado ao fortalecimento da política nacional de adaptação.

Confira o episódio completo no YouTube e no Spotify.

Adaptação à mudança do clima: muito mais ampla do que parece

Quando se fala em mudança do clima, o primeiro impulso é pensar em emissões de carbono e em como reduzi-las. Carol abre a conversa com uma visão essencial para direcionar os ouvintes, que é: os impactos das mudanças já estão acontecendo, e a pergunta passa a ser como reduzir riscos e aumentar a capacidade de adaptação diante desses impactos?

A adaptação climática não tem uma materialidade única. Enquanto amitigaçãobusca reduzir emissões, a adaptação se concentra na redução do risco climático, que atravessa diferentes setores e territórios. E esse risco incide sobretudo em áreas como a saúde, infraestrutura energética, de logística, sistemas agrícolas, centros urbanos e modos de vida de comunidades tradicionais.

Isso significa que a agenda da adaptação é simultaneamente individual e coletiva. Ela começa na escolha de qual lado da rua caminhar para ter mais sombra e chega até decisões de Estado sobre onde alocar infraestrutura crítica, como planejar cidades e como proteger populações vulneráveis.

Carol afirma que, quanto mais lenta é a implementação das ações de mitigação, maiores tendem a ser os impactos climáticos e, consequentemente, a necessidade investimentos em adaptação.

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Plano Clima Adaptação: uma política de Estado até 2035

Um dos marcos mais importantes discutidos no episódio é o Plano Clima Adaptação, lançado pelo governo federal, que estabelece como o Brasil vai se preparar para os impactos climáticos até 2035.

O plano é composto por uma estratégia nacional de adaptação com nove objetivos gerais. Eles vão da segurança hídrica à proteção do patrimônio cultural, desdobrados em 16 estratégias setoriais e temáticas. Diversos ministérios e órgãos federais participaram da sua elaboração, o que representa uma inovação institucional significativa. Carol explica que “não é um plano ambiental, não é um plano do Ministério do Meio Ambiente. Ele é um plano conduzido por um comitê interministerial. A gente fala de economia, a gente fala de energia, agricultura, das pessoas.”

Entre os temas transversais presentes no plano está a justiça climática, especialmente no que diz respeito ao reconhecimento de que os impactos climáticos afetam de forma desproporcional as populações mais vulneráveis, exigindo que o planejamento considere essas desigualdades.

O Plano Clima Adaptação foi criado com a perspectiva de uma política de Estado, buscando orientar ações para além dos ciclos de governo. A coordenação política fica sob a Casa Civil; a coordenação técnica é compartilhada entre o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação.

A governança por trás do Plano Clima

Entender quem conduz a agenda climática no Brasil é essencial para compreender como ela pode avançar. O episódio apresenta o conceito de federalismo climático: a ideia de que enfrentar os impactos das mudanças do clima não é responsabilidade de um único ente, e que estados, municípios e setor privado precisam assumir papéis ativos.

A implementação do Plano Clima Adaptação depende da articulação entre governo federal, estados, municípios, setor privado, academia, e sociedade civil. Carol destaca que  enfrentar os riscos climáticos exige coordenação entre diferentes atores, já que os impactos se manifestam nos territórios e ultrapassam as competências de um único setor ou nível de governo.

“Os impactos não escolhem CNPJ. Eles acontecem no nível local, nos territórios. Quem está ali naquela paisagem vai ser afetado, e a gente precisa somar esforços.” 

Ana Carolina Câmara – Diretora de Projetos GIZ

Carol destaca que a governança climática envolver elevada complexidade, justamente pela quantidade de atores e setores envolvidos. Essa Característica reforça a adaptação não deve ser compreendida apenas como uma agenda ambiental, mas também de desenvolvimento, saúde, planejamento”.

AdaptaCidades: do planejamento à prática municipal

Um dos programas apresentados no episódio é o Adapatacidades,  iniciativa voltada a traduzir os compromissos do federalismo climático em ações concretas nos municípios. Paralelamente, a Lei 14.904/2024 estabelece diretrizes e incentivos para a formulação de planos de adaptação em qualquer nível governamental.

A meta é alcançar, até 2035, pelo menos 2.000 municípios, o que representaria a cobertura de 80% da população brasileira. Atualmente, 581 municípios já estão integrados ao programa. “Depois que você entende a dimensão do risco climático, você vai introjetá-lo em tudo, em todas as pequenas e macro decisões que vão ser tomadas”, afirma a especialista. 

Adaptação climática como estratégia de resiliência

As agendas de mitigação e adaptação não são opostas, mas complementares.  Enquanto a mitigação busca reduzir as causas das mudanças climáticas, a adaptação procura reduzir os riscos e os impactos que já afetam pessoas, territórios e atividades econômicas. Mas à medida que a agenda climática avança com lentidão, os impactos se acumulam — e a necessidade de adaptação cresce junto.  Ainda assim, como ressalta Carol, a adaptação possui limites.

“É como se a gente tivesse um telhado que está furado e está entrando água. No início eram pequenas gotinhas. Agora, esses buraquinhos já estão bem maiores. Vai chegar uma hora que a gente vai ficar sem telha e a água vai entrar e não tem como remediar.” (Ana Carolina Câmara)

Para as empresas, esse raciocínio tem implicações diretas. A adaptação climática não é um custo opcional, é um componente do gerenciamento de risco. Uma operação que ignora os riscos climáticos sobre sua infraestrutura, cadeia de suprimentos e território pode comprometer a própria continuidade do negócio. Carol reforça que não basta analisar a planta da empresa: é preciso considerar o território, a infraestrutura logística e os fornecedores, já que os impactos podem afetar toda a cadeia.

O Brasil em diálogo com o mundo

A agenda de adaptação também se fortalece por meio da cooperação internacional. Carol menciona alguns dos principais fóruns globais voltados ao tema: o NAP Expo (evento dedicado a planos nacionais de adaptação, realizado em Kigali, no Ruanda), o Adaptation Futures e os espaços paralelos das COPs, onde países compartilham avanços, desafios e soluções.

No setor privado, um fórum empresarial sobre adaptação climática realizado em São Paulo, dias antes da gravação do episódio, reuniu empresas para troca de metodologias e práticas. O interesse cresce porque o risco climático afeta toda a cadeia — e não espera que o planejamento esteja pronto para se manifestar.

Os eventos recentes no Brasil, como as enchentes no Rio Grande do Sul e secas severas na Amazônia em 2024, contribuíram para uma mudança de percepção importante, tanto entre gestores quanto na sociedade em geral. Carol pontua que a mudança do clima funciona como uma lupa: ela intensifica e torna mais visíveis as fragilidades que já existiam. 

O episódio #57 do Podcast Amplum Biogás é uma conversa franca e aberta sobre urgência e sistemas. Carol mostra que a adaptação não é uma agenda ambiental, mas de desenvolvimento, de saúde pública, de infraestrutura, de negócios e de futuro.

O que ainda falta, como ela mesma aponta, é vontade política de governantes, de empresas e de uma sociedade que comece a entender os riscos climáticos não como um tema do futuro, mas como uma variável que já define o presente.

Ouça o episódio completo no YouTube e no Spotify.

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